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Yeisy Rojas transforma uma pergunta sobre o mundo em um chamado à humanidade em “¿Dónde está el amor?”

26 de ago.
4 min de leitura

Existem músicas que tentam encontrar respostas e existem aquelas que entendem que, diante de determinadas questões, fazer a pergunta certa já é uma forma de resistência. Em “¿Dónde está el amor?”, Yeisy Rojas escolhe justamente esse segundo caminho. Integrante do álbum Inmigrante, a faixa nasce de uma inquietação diante de um mundo atravessado por conflitos, perseguições, intolerância e profundas divisões, mas não se entrega ao desespero. Ao contrário, transforma essa inquietação em uma reflexão sobre empatia, esperança e a necessidade de recuperar aquilo que ainda pode nos aproximar.


A composição começa de maneira delicada, quase como uma conversa particular. O piano ocupa o primeiro plano e cria um ambiente de introspecção no qual a voz de Yeisy ganha espaço para apresentar a pergunta que conduz toda a música. Não existe pressa para chegar a um grande momento. A artista permite que o sentimento seja construído gradualmente, fazendo com que o ouvinte primeiro entre em contato com a vulnerabilidade antes de perceber a dimensão que a faixa irá alcançar.


Essa escolha é importante porque “¿Dónde está el amor?” não começa como um manifesto. Começa como uma inquietação. A sensação é de acompanhar um pensamento que poderia ter surgido em silêncio e que, pouco a pouco, encontrou na música uma maneira de existir. Yeisy não transforma sua reflexão em um discurso distante. Ela a apresenta de forma humana, criando uma proximidade que faz com que a pergunta central pareça menos uma afirmação sobre o mundo e mais uma pergunta feita diretamente a quem está ouvindo.


É a partir desse ponto que a produção começa a se transformar. As tumbadoras e os ritmos afro cubanos entram progressivamente na construção, trazendo movimento para uma música que até então estava profundamente concentrada na introspecção. A mudança não quebra a atmosfera inicial. Pelo contrário, amplia aquilo que já estava sendo construído e conecta a experiência individual de Yeisy às suas raízes culturais.


Esse encontro entre delicadeza e ritmo é um dos grandes méritos da faixa. A música consegue crescer sem perder sua essência. O piano permanece como uma espécie de eixo emocional, enquanto a percussão adiciona corpo e identidade. A reflexão deixa de estar confinada a um espaço íntimo e começa a ganhar uma dimensão coletiva.


O momento em que o coral gospel aparece representa justamente essa transformação. A entrada das vozes cria a sensação de que a pergunta deixou de pertencer apenas a uma pessoa. “¿Dónde está el amor?” passa a soar como um chamado compartilhado, quase como se diferentes vozes estivessem procurando juntas uma resposta para uma mesma inquietação.


A combinação entre a tradição afro cubana e a força do gospel produz um resultado especialmente significativo. São referências culturais distintas que se encontram dentro de uma composição construída sobre a ideia de conexão. A música não utiliza essas influências apenas como elementos estéticos. Elas fazem parte da própria mensagem da faixa, mostrando como diferentes tradições podem coexistir e criar algo maior quando colocadas em diálogo.


Yeisy Rojas também se destaca pela maneira como conduz essa transformação através da interpretação. Violinista, cantora, compositora e produtora, a artista reúne diferentes dimensões de criação em seu trabalho, mas é sua entrega emocional que dá à faixa uma de suas características mais marcantes. No início, sua interpretação transmite fragilidade e questionamento. Conforme a música cresce, essa fragilidade dá lugar a uma sensação de força, acompanhando a passagem do individual para o coletivo.


Essa evolução faz com que a música pareça respirar junto com a própria pergunta. Quanto maior a produção se torna, maior também parece ser a necessidade de encontrar uma resposta. Mas Yeisy toma uma decisão importante: ela não oferece uma conclusão simples.


“¿Dónde está el amor?” não promete resolver conflitos, explicar a intolerância ou apresentar uma fórmula para unir um mundo dividido. A artista deixa a pergunta aberta. E talvez seja justamente isso que torne a composição tão potente. Em vez de dizer ao ouvinte o que pensar, Yeisy o coloca diante da mesma questão que motivou a música.


Essa abertura transforma o público em parte da obra. Cada pessoa pode responder à pergunta a partir de sua própria experiência. Para alguns, o amor pode estar na família. Para outros, na solidariedade, na amizade, na comunidade ou simplesmente na capacidade de reconhecer a humanidade de quem pensa e vive de maneira diferente.


Dentro de Inmigrante, a faixa ganha ainda mais significado. O próprio conceito de deslocamento, identidade e encontro entre culturas encontra um reflexo direto na construção musical. Yeisy utiliza elementos afro cubanos e gospel para criar uma linguagem que ultrapassa fronteiras e reforça uma ideia fundamental: diferenças culturais não precisam significar distância.


A música também dialoga com a própria trajetória artística de Yeisy. Sua experiência como violinista, cantora, compositora e produtora permite que a faixa seja construída com atenção tanto à mensagem quanto aos detalhes musicais. O resultado não depende apenas da letra para transmitir sua emoção. O arranjo também conta essa história, passando do silêncio relativo do piano para a força das percussões e, finalmente, para a dimensão coletiva do coral.


É uma construção que acompanha uma espécie de movimento emocional. Primeiro vem a dúvida. Depois, a inquietação cresce. Em seguida, outras vozes aparecem. E quando a música chega ao seu momento de maior força, a pergunta já não parece pertencer somente a Yeisy. Ela pertence a todos.


“¿Dónde está el amor?” é, portanto, uma faixa sobre ausência, mas também sobre procura. Não fala apenas daquilo que falta no mundo, mas da necessidade de continuar procurando aquilo que pode reconstruir vínculos. Em tempos marcados por tantas divisões, Yeisy escolhe não responder com mais uma divisão. Ela responde com música.


Entre o piano intimista, as tumbadoras afro cubanas e a força do coral gospel, a artista transforma uma pergunta dolorosa em um convite à reflexão. A música começa pequena, quase como um pensamento particular, e termina com a dimensão de uma mensagem coletiva.


No fim, talvez a maior força de “¿Dónde está el amor?” esteja justamente na simplicidade de sua pergunta. Yeisy Rojas não afirma que encontrou a resposta. Ela nos lembra que ainda precisamos procurá-la.


E quando uma música consegue fazer milhões de conflitos parecerem, por alguns minutos, uma única pergunta humana, talvez ela já tenha encontrado parte da resposta que estava procurando.



 
 
 

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