YANN aposta no surrealismo e na estética dos games dos anos 1990 no videoclipe de “Shoot Bang Kill”
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O desejo pode ser bonito e assustador ao mesmo tempo. É a partir dessa contradição que YANN constrói o universo visual de “Shoot Bang Kill”, seu primeiro single em inglês. Com direção de Sam Reiss, o videoclipe transforma a faixa em uma espécie de pesadelo queer, combinando referências ao cinema de David Lynch com a estética de baixa resolução dos jogos de PlayStation dos anos 1990.
A proposta visual foge do acabamento hiper-realista comum em produções contemporâneas. Polígonos, sombras, texturas imperfeitas e movimentos característicos da primeira geração de jogos em 3D criam uma atmosfera estranha e hipnótica. Em vez de esconder essas limitações estéticas, YANN as transforma em parte essencial da narrativa, utilizando a linguagem dos games como ferramenta para construir um universo entre o real e o imaginário.
O conceito acompanha a própria essência de “Shoot Bang Kill”, uma música sobre se apaixonar contra a própria vontade. No videoclipe, o sentimento aparece entre a delicadeza e a ameaça, criando uma narrativa em que desejo e desconforto caminham lado a lado. A inspiração em Lynch contribui para essa sensação, com uma abordagem menos interessada em explicar literalmente a história e mais concentrada em provocar sensações.
A estética também ganha um significado especial ao incorporar a experiência queer como elemento central da narrativa. O estranhamento deixa de ser apenas um recurso visual e passa a representar uma forma de pertencimento. O que pode parecer desconfortável ou deslocado para quem observa de fora se transforma em um espaço de identificação dentro do universo criado pelo artista.
Outro diferencial está no processo de produção. Em um momento marcado pelo crescimento das imagens geradas por inteligência artificial, “Shoot Bang Kill” segue pelo caminho oposto. Nenhuma etapa da animação utilizou IA. Cada frame foi produzido manualmente pelo animador e artista de VFX Robert Simmons, em um processo que levou meses e ajudou a construir a textura artesanal característica do videoclipe.
A direção de Sam Reiss, conhecido por trabalhos ligados a nomes como Madonna, CHANEL e Mugler, conduz esse conceito com precisão. A direção de fotografia de Vince Rappa, que já trabalhou com Selena Gomez, Adidas e Apple TV, complementa a proposta, enquanto Simmons, com trabalhos associados a artistas como Charli XCX, A$AP Rocky e Megan Thee Stallion, assume a complexa construção da animação e dos efeitos visuais.
A própria música contribui para a experiência. Produzida em parceria com Bruno Knauer, “Shoot Bang Kill” começa com uma aparente inocência de chiptune antes de explodir em synth-pop aos 12 segundos. A mudança sonora encontra um paralelo direto no videoclipe, que também utiliza a familiaridade dos games antigos para conduzir o público a um ambiente cada vez mais surreal.
Lançado em 17 de julho, o single marca a estreia de YANN no mercado de língua inglesa e chega após uma sequência de resultados expressivos no Brasil. Seu hino de orgulho “IGUAL” alcançou a sexta posição no Viral da Spotify Brasil e gerou mais de 300 matérias ao redor do mundo, incluindo publicações como Billboard e O Globo.
Com “Shoot Bang Kill”, YANN amplia sua identidade artística ao apostar em uma linguagem visual ousada, artesanal e pouco convencional. A combinação entre estética de videogame, surrealismo, desejo queer e uma produção construída manualmente transforma o videoclipe em algo maior do que um complemento da música. É uma obra que apresenta YANN a um novo público sem abrir mão da estranheza e da personalidade que tornam seu trabalho reconhecível.



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