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“Dracaena”: Zaki constrói um álbum-manifesto onde ancestralidade e futuro se encontram

9 de abr.
2 min de leitura

No atual cenário da música brasileira, em que projetos autorais frequentemente se fragmentam em lançamentos isolados, o artista Zaki Mattos aposta na contramão ao apresentar Dracaena, seu primeiro álbum completo de estúdio. Com 11 faixas inéditas, o trabalho se impõe como uma experiência pensada em sua totalidade — uma obra que não apenas se escuta, mas se atravessa.


Estruturado como uma imersão narrativa e sensorial, Dracaena tem na black music seu alicerce estético, mas recusa qualquer limitação de linguagem. O álbum transita com fluidez por diferentes gêneros, criando uma sonoridade híbrida que revisita a música popular brasileira sob uma perspectiva contemporânea e, ao mesmo tempo, projetada para o futuro. É um disco que conecta periferias urbanas e territórios rurais, tradição e reinvenção, memória e possibilidade.


No centro dessa construção está a busca por uma identidade sonora autêntica. Em parceria com o produtor DJ Samu, Zaki desenvolve uma abordagem que valoriza tanto a experimentação quanto o enraizamento cultural. A presença de instrumentação orgânica — com elementos como cuíca, zabumba e berimbau — se entrelaça com beats eletrônicos modernos, criando uma textura rica, viva e profundamente brasileira.


Essa proposta se amplia com o uso de samples e colagens sonoras que evocam vozes fundamentais da cultura nacional, como Rita Lee, Elza Soares e Glória Maria. Mais do que referências, essas presenças funcionam como pontes simbólicas, conectando diferentes tempos e narrativas dentro do álbum.


As temáticas abordadas reforçam a densidade do projeto. Dracaena mergulha em questões como sincretismo religioso, identidade cultural e opressões sociais, sem perder de vista o caráter sensorial da música. Há momentos de forte carga espiritual, como o mantra em formato de trap dedicado a Nossa Senhora Aparecida, além de passagens profundamente afetivas, como as homenagens à ancestralidade familiar e às entidades de matriz africana.


Dentro desse universo, “Salve a Bahia” se destaca como uma das faixas mais emblemáticas do álbum. Mais do que um destaque isolado, ela funciona como eixo simbólico de Dracaena. A canção concentra, com força e clareza, os principais elementos que definem o projeto: espiritualidade, identidade, ritmo e pertencimento.


Em “Salve a Bahia”, a música assume quase um caráter ritualístico. A fusão entre percussões tradicionais e produção contemporânea cria uma atmosfera envolvente, onde o som não apenas acompanha a narrativa — ele a conduz. Há uma energia que remete à celebração, mas também à resistência, como se a faixa evocasse não apenas um lugar, mas uma história coletiva.


A Bahia, aqui, não é apenas geografia — é símbolo. É ponto de origem, de força cultural, de memória viva. E Zaki compreende isso ao construir uma faixa que reverencia sem cristalizar, que atualiza sem descaracterizar.


“Salve a Bahia” sintetiza o que Dracaena propõe em escala maior: uma música brasileira que olha para suas raízes com profundidade, mas que não se limita a elas. Um som que reconhece sua história, mas insiste em reinventá-la.


Ao final, Dracaena se estabelece como mais do que um álbum de estreia. É um manifesto artístico. Um trabalho que demonstra visão, consistência e coragem estética.


E que posiciona Zaki Mattos como um nome atento ao seu tempo — e, sobretudo, comprometido em expandir os limites da própria música brasileira.



 
 
 

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